A migração da morte ou o turismo suicida (Ayala Gurgel)
Graças aos interditos do pleno exercício da dignidade humana que existem na Europa (ao contrário do que se propaga, nunca acreditei que o velho continente fosse exemplo de humanismo), centenas de pessoas migram de seus países - e também de outros continentes - rumo à Suiça, Bélgica, Holanda e Luxemburgo em busca do exercício do seu direito de morrer.
Como nesses países o suicídio assistido é permitido e regulamentado pelos seus conselhos de Medicina, diversas clínicas especializadas, como a Dignitas, organizam viagens de estrangeiros com essa finalidade. Só na Suiça, dos 1.360 suicídios que ocorreram no ano de 2007, 400 foram assistidos. Estima-se que a maioria de estrangeiros, especialmente britânicos.
Há muito lucro em cima disso, é verdade, mas isso só acontece porque, com exceção dos quatro citados, nenhum outro país europeu concede tal direito, muito embora se propaguem ao mundo como guardiões dos direitos humanos e do exercício da dignidade humana.
É bastante comum encontrarmos grupos anti-suicidas (ou como se denominam, pró-vida) que fazem protestos, piquetes, denúncias, petições e tudo o mais que podem dentro da lei e fora dela, com o intuito de reduzir o número de clínicas e países que já regulamentaram tal prática.
Na Suiça, há uma petição junto ao Conselho Federal para proibi-la, usando como argumento o comércio desse tipo de turismo. O argumento é bastante falacioso, pois o turismo suicida só existe porque em outros países a prática é proibida.
Os órgãos deliberativos desses países procuram uma solução intermediária (a mais viável seria pressionar os demais países a regulamentarem o suicídio assistido e a eutanásia) que possa garantir os direitos dos seus cidadãos ao mesmo tempo que não "ofenda" à soberania dos vizinhos. Algumas estratégias estão sendo aplicadas como redução do público assistido (somente moribundos conscientes, cuja condição tenha sido posterior à sua entrada no país - para os que não são nativos), exigência de parecer de mais de um médico, proibição de ganhos comerciais e realização do ato sem outros interesses, a não ser a ajuda ao próximo.
Enquanto isso, o turismo suicida irá continuar, do mesmo modo que irá continuar a prática ilegal do suicídio assistido em muitos outros países, o suicídio solitários em pontes e trens, pois, questões religiosas à parte, o direito de tirar a própria vida quando essa não vale mais a pena ser vivida é uma prática recorrente na história da humanidade, e não vai ser um punhado de executivos que irá modificá-la.
O álcool, a morte e a filosofia (Ayala Gurgel)
Evidentemente que isso não é a filosofia. São alguns filósofos, cujo culto é bastante difundindo entre mentes mais fracas, que fazem tais exaltações. Aliás, até parece ser uma regra para ser considerado um grande filósofo: apresentar comportamento auto-destrutivo, abusar de álcool, ser esquizofrênico e ter algum grau de pedofilia ou psicopatia. De todos esses, abuso do álcool se sobressai. Sócrates era elogiado porque já tinha desenvolvido resistência ao álcool. Dos prazeres libertinos, esse é o mais cultuado na filosofia. E pena saber que ela rende toda sua criticidade, abandona a razão e se entrega em uma taça de vinho, cujo maior argumento, segundo Khayyam, é o de que o vinho foi feito para ser bebido mesmo.
Mas, qual o problema com isso e o que tem com a tanatologia?
O abuso de álcool foi responsável, no período de 1998 a 2002 por 5,8 óbitos/100.000 homens, o que representa 83,3% dos óbitos por distúrbios mentais entre homens e 34,8% entre as mulheres.
Ele é, assim como a morte, um problema de saúde pública, uma questão social.
Pensar em morte hoje é imaginá-la como uma questão de saúde pública. A morte e o morrer fazem parte dos rituais sociais. O estado está obrigado por lei (e pela moral) a gerenciar a morte e o morrer, desde a morte física do indivíduo à morte social. Deste modo, a morte e o morrer são questões sociais que envolvem o patrimônio público (material e simbólico) e o poder designado para administrá-lo, que passam pela segurança e assistência na garantia da vida ao nascer, ao viver e ao morrer.
Dentro deste contexto de morte social, nada mais representativo que o uso de drogas, lícitas ou ilícitas, por ser um fenômeno social que carrega consigo vários espectros construídos no imaginário social, mobilizando sentimentos e preconceitos, posturas contraditórias e movimentando a indústria capitalista e o os serviços públicos e privados de assistência à saúde. Tais sentimentos estão envolvidos tanto com a sua massificação positiva, do tipo que se “vende alegria numa lata de cerveja”, quanto à sua massificação negativa, do tipo que “usuário de droga é marginal”. Reforçadores que afetam significativamente o bem-estar das pessoas que convivem e usam álcool e outras drogas, em especial, quando já têm comportamento dependente de tais substância químicas.
No entanto, a vida dessas pessoas não tem sido fácil, pois além da dependência orgânica, a convivência com as exigências sociais de sucesso, empregabilidade, vida saudável e convívio familiar têm sido interditadas pelo comportamento excludente contra o dependente químico, seja na qualidade de encontrar reforçadores para mantê-lo dependente, seja na qualidade de não encontrar apoio para se libertar da dependência e ser inserido em outras contingências. A esse tipo de exclusão dar-se o nome de morte social.
Se a filosofia recuperasse a sua reflexão crítica iria abandonar certos discursos prontos ou herdeiros de outros contextos sociais determinados sob outras circunstâncias. Iria refletir mais sobre o que significa mesmo a esquizofrenia, o alcoolismo, a pedofilia... Ela que já sondou tantas questões, algumas tão sem sentido, porque ainda não fez essas? Porque ainda não questiona a própria doença dos filósofos? Talvez porque refletir sobre a própria doença seja um passo para a cura, e cura é algo que um pensamento mórbido, hipocondríaco não deseja.
Enquanto isso, bebamos e morramos, amanhã a lua pode nos procurar em vão...
Sobre a Eternidade (Marco Antônio Florentino)
Até que a Morte Nos Una: Francesa se casa com Namorado Morto (Erasmo Ruiz)
Não é piada mórbida. Aconteceu esta semana na França. Magali Jaskiewicz morava junto com seu namorado Jonathan Goerg. Os dois já tinham dois filhos e, então, resolveram se casar de papel passado.
Dois dias depois de terem entrado com os papeis para a realização do casamento, Jonatthan morreu num acidente de carro. O que seria um impedimento natural em qualquer lugar do mundo não ocorreu na França. É que lá a legislação permite essa forma de casamento desde que o morto tenha manifestado em vida (lógico) o interesse em se casar. Para que isso aconteça, depois de alguns trâmites, deve haver autorização formal do Presidente de da República.
O casamento aconteceu em Dommary-Baroncourt, no leste da França. Magali usou o vestido de noiva comprado há um ano. Jonathan se fezx "presente" a partir de uma foto colocada num cavalete. Depois da cerimôonia Magali disse não estar muito animada para festejos mas ainda assim estava feliz por se casar.
Uma história triste, ao mesmo tempo lírica e romântica. Mas, fora o romantismo, há que se destacar uma questão importante. Não parece ser um sinal de uma cultura que respeita a vontade dos indivíduos, mesmo que estejam mortos? Com a palavra o nosso querido Doutor Ayala Gurgel, expert em direito social dos moribundos.
Cemitérios Virtuais: Sendo "Sepultado" na Internet (Erasmo Ruiz)
Nem só de blogs, sites de relacionamento e pornografia vive a grande rede. Entre coisas mais interessantes, podemos vislumbrar a possibilidade de sermos "sepultados" em cemitérios virtuais.
Em tempos onde tudo passa muito rápido e a capacidade de perda de memória coletiva parece competir com nossa capacidade ampliada de registra-la, a internet pode se transformar em espaço para celebrarmos publica ou privadamente a memória de nossos entes queridos ou, então, buscarmos informações onde nossos antepassados ou mesmos ídolos famosos estão enterrados.
Mas vamos ao que interessa. Entre os cemitérios virtuais destaca-se o Le cimetière virtuel site francês pioneiro onde por pequenas taxas em euro você poderá comprar "tumbas" escrever epitáfios e depositar flores. Há espaços dedicados a fotos e obituários bem como segmentações por idade, religião ou gênero.
Mas se o seu francês não anda lá essas coisas, não tem problema. Você pode visitar o campavirtual.com site português (ou "sítio" como gostam nossos irmãos lusitanos), com tons mais sóbrios que oferece opções similares embora mais restritas. Ah, gostei muito das flores embora tenha achado o cemitério português muito desanimado.
Por fim, se você quer saber onde está enterrado Oscar Wilde ou o Presidente Kennedy nós temos a solução: basta pesquisar no "Find a Grave" , uma mina de ouro não só para quem gosta de ir tanaticamente atrás de celebridades que não estejam tanto assim em evidência mas que também goste de arte tumular ou de fazer viagens virtuais por cemitérios. Realmente, este site oferece inúmeras alternativas para surfar na net enquanto vamos pensando na morte.
Agora, como tudo o que acontece no mundo da grande rede, abre-se uma enorme cortina para acessarmos inúmeras informações mas parece que nada pode substituir o prazer real de visitar um cemitério enquanto respiramos história e memória, e vamos refletindo sobre a própria vida!
Filmes de Guerra como Cultura de Paz: Formas e Formas de se Morrer (Erasmo Ruiz)
O cinema faz parte do cotidiano da vida da maioria de nós, em particular, o cinema norteamericano. Os filmes comparecem mesmo que ninguém vá ao cinema. Temos a TV, temos também a publicidade, temos metáforas que a semelhança de "A Rosa Púrpura do Cairo" de Wood Alen, abandonam. as telas e adentram em nossas vidas na forma de diretivas ou sinalizações práticas de comportamentos e hábitos.
Particularmente admiro o cinema americano e rotulo como preconceituosa a crítica que opõe um cinema de arte frente a um cinema comercial, até porque, numa sociedade capitalista, o cinema é também mercadoria e, desta sina, não escapa nem um bom filme de Ingmar Bergman. Prefiro afirmar que existem filmes ruins e filmes bons. Óbvio dizer que o "bom" e o "ruim" são arbítrios com todos os riscos decorrentes.
Outro dia depois de rever um velho western - "Matar ou Morrer" com Gary Cooper e uma belíssima Grace Kelly em início de carreira - fiquei me perguntando como pensaríamos nossa morte se o cinema não existisse. A morte quase sempre foi mostrada no cinema como um evento doloroso, outras vezes heróico, pincelada com sentidos práticos (ela deve existir para punir o vilão e/ou consagrar miticamente o heroi etc). Mas até o início dos anos 60, o público era poupado de detalhes mais realistas como sangue ou visões anatômicas de cortes e fraturas.
Hoje, filmes que abusam de cenografias mórbidas tem consultores na área médica para buscarem realismo quando, por exemplo, a carótida é cortada ou uma bala atravessa a femural. Nossa imaginação é absolutamente desnecessária, basta ver a imagem e sentir todo o horror dela decorrente. Mas, de fato, aprendemos alguma coisa quando vemos filmes como "Jogos Mortais" ou o eterno acumular de frios assassinatos em "Sexta Feira 13"? Do meu ponto de vista, filmes com esta estética explícita da morte são meramente catárticos. Servem para que nós, curiosamente, possamos ver a morte protegidos pela barreira da arte, são expressões do exibicionismo e espetacularização de uma sociedade que transformou a morte em tabu, em evento médico e higiênico. Os filmes com este tipo de conteúdo são janelas entreabertas para desfrutarmos de uma certa busca de olhar a barbárie sem necessariamente exerce-la, mas podendo, de certo modo, aprecia-la esteticamente e ainda sermos julgados como pessoas "normais".
Mas existem filmes mais "pedagógicos". Por exemplo, filmes de ação transformam a morte em problemas práticos, resultado da perícia do herói em atirar e magicamente desviar-se das balas. Filmes e video-games são extensões um do outro. Bruce Willis nos seus "Duro de Matar" é na verdade um assassino que representa a platéia e sua sanha de combater o mal sem morrer durante a tentativa, filmes que seguem as trajetórias já iniciadas por Clint Eastwood ou Charles Bronson. Como "matadores" que se identificam com seus personagens, somos estimulados à indiferença com quem é assassinado sistematicamente na tela, afinal, o fato de serem maus rouba deles a condição de humanidade.
Essa parece ser a chave da questão. Os filmes de ação para serem assimilados e consumidos devem retirar dos mortos toda e qualquer identidade que expresse sua humanidade, só assim a morte pode ser aceita como se houvéssemos matado um cão raivoso. Para isso, o conhecimento bélico e uma boa pontaria são atributos essenciais...tiros e mais tiros...explosões e corpos decepados para o delírio da platéia.
Mas existem outras situações em que a morte violenta se expressa com numa estética decididamente realista que vai além da caracterização de ferimentos. Falo aqui de alguns filmes de guerra (uma minoria infelizmente) como "Platon", "O Resgate do Soldado Rayan", "Johnny Vai a Guerra", "Pecados de Guerra", "Nascido para Matar" , "Nascido a 4 de Julho" ou "Gloria Feita de Sangue". Evidentemente, a análise de todos estes filmes comportaria um livro. Entretanto, tomemos como exemplo o filme "O Resgate do Soldado Ryan" de Steven Spilberg.
Não entrarei numa discussão mais prolongada sobre história e roteiro. Queria destacar apenas como a morte comparece no filme. Spilberg não quer poupar o público. Mas, diferente do que estamos acostumados a ver, ele nos traz também todo o impacto emocional que a morte violenta e dolorosa provoca. Desde as imagens iniciais quando a morte é mostrada como evento absolutamente aleatório (como o soldado que escapa da morte porque a bala resvala no seu capacete para no segundo seguinte ser alvejado e morto), ficamos a perguntar qual o sentido de todo aquele sofrimento. Nos irmanamos com o desespero do soldado que procura pelo braço que doi decepado pela explosão. O recado está dado. Isso não é uma brincadeira, as pessoas morrem de forma franca e honesta. Numa guerra, a morte se mostra dolorosa e intensa.
Mais pela metade do filme, o oficial médico que está no pelotão que procura o Soldado Ryan é alvejado no ventre. Como médico, ele sabe todas as decorrências técnicas da sua lesão na medida em que é informado pelos companheiros sobre suas características. Desesperado, chora e grita pela mãe. O que aconteceria se esta forma de mostrar a morte fosse a usual no cinema? Será que as pessoas se mobilizariam com tanta facilidade para lutarem numa guerra? Provocativamente eu diria que filmes aparentemente belicistas como "O Resgate do Soldado Ryan" são na verdade importantes recursos para se construir uma cultura de paz ao mostrarem que por trás dos rostos de quem morre existem atributos que caracterizam cada individualidade perdida como essencialmente humana. Fica a sinalização de que a morte com dor e sofrimento é DESUMANA e nada pode justificar que ela aconteça dessa forma.
O que Lembrar no Dia de Finados? (Erasmo Ruiz)
Death Bonds: Títulos da Morte no mercado financeiro (Ayala Gurgel)
Wal-Mart e a Mercantilização da Morte (Mariana Farias)
O luto por animais: a difícil tarefa do desapego (Mariana Farias)
O Recalque como Expressão Artística: A Morte como Objeto (Erasmo Ruiz)
O que está reprimido sempre busca formas de expressão. Não se trata de pensar esse conceito apenas como a psicanálise o faria mas pensarmos a semelhança de Nobert Elias, qual seja, no sentido de como o processo civilizatório em seu desenvolvimento busca (re)frear determinados comportamentos considerados inadequados para este ou aquele objetivo socialmente constituído.
Óbvio que os indivíduos pagam seu preço por isso. No passado a repressão sexual, muito mais marcante, ajudava a constituir rico e diverso quadro de transtornos mentais. Mas, como todo recalque, a estética consagrava formas específicas de sua liberação. A arte, por excelência, sempre foi um mecanismo para tal. Basta pensarmos que é no auge da repressão vitoriana que encontraremos a beleza da estatuaria mortuária em suas transparências, expondo seios, mostrando contornos semi-encobertos. Ao visitar um cemitério mais antigo perceberemos com alguma boa vontade que morte e erotismo parecem produzir uma estranha e atrativa mistura.
Mas não precisamos recuar tanto ao passado. Representações da morte comparecem de forma marcante na arte contemporânea. Será que a relativa excclusão social dessa temática produz o seu ncontrário, ou seja, favorecem com que o tema se torne especialmente atrativo? Como tudo que é recalcado, há sempre a exigência mais ou menos velada para sua expressão.
Tradicionalmente as artes plásticas já trabalharam com modelos mortos, transformando-os em desenhos e pinturas. Noutras circunstâncas, mortos "pousam" como vivos, uma forma de "memento mori"que nega e ao mesmo tempo afirma a morte. Mas gostaria nesta, e em próximas postagens, explorar a radicalidade da morte enquanto obejto artístico. Em quê se constituiria essa radicalidade?
Trata-se de sinalizar que, no limite, a própria morte, o corpo morto, os restos mortais, ossos, esqueletos, os instrumentos para produzi-la, enfim, as expressôes materiais da morte, como expressões materiais da realidade, podem ser transformados em objetos e conceitos artísticos, por mais que isso possa ofender sensos estéticos consolidados, até porque esse é um dos papéis da arte, funcionar com certo espírito de vanguarda e, volta e meia, contrapropor um novo olhar sobre o real.
Queria por em destaque o trabalho de Lucinda Devlin, fotógrafa norteamericana que, com aguda percepção, nota que existiria uma suspeita semelhança entre os espaços de cura com os locais de execução de condenados a morte. No trabalho intitulado "Omega Suite" Lucinda expõe uma série de fotografias onde vemos cadeiras elétricas, salas de câmara de gás e recintos para injeções letais. Ela explora o domínio dos espaços interiores como marca da cultura americana e percebe essa marca também no terreno da morte.
Lucinda mostra "mementos mori" típicos do nosso tempo, onde a cultura higienista atinge nossas vidas e regulam nossa morte, aconteça ela num hospital ou numa elaborada sala de execução. Ela não tem objetivo de questionar a pena de morte com o seu trabalho mas, claro, como arte, sua proposta ganha autonomia e assume novos significados para todos que dela usufruem. Embora não vemos nenhum homem nas fotos, é impossível não imaginar os virtuais sofrimentos psicológicos de quem irá se deparar com a morte sem subterfúgio alguum. Teria sentido essa barbárie revestida de aparato tecnológico e higiênico? A pena de morte não nos transformaria todos em assassinos na medida em que o Estado assume a função pública de matar em nosso nome?
Deixo com vocês as imagens de Lucinda Devlin!
Mercantilização da Morte: Eros e Thanatos à Venda (Ayala Gurgel)
E, nada melhor para nos lembrar de um produto capitalista que precisa ser consumido do que os calendários. Eles anunciam de tudo: carros, pratos, casas, mulheres, crianças, animais, e, porque não, a morte.
Os antigos maias tinham em seus calendários a figura da morte (geralmente à sombra do sol). Ela conta o passar dos tempos, como o próprio tempo. Isso talvez para nos lembrar que não é o tempo que passa, somos nós que passamos.
Uma funerária italiana vem inovando nesse ramo já a alguns anos. O calendário de 2010 já está pronto e custa 9,30 euros. Ele, seguindo a lógica dos anteriores, reúne Eros e Thanatos em uma mesma mercadoria.
O calendário mostra a cada mês uma mulher ao redor de um modelo de caixão, que pode ser encomendado na loja da Cofanifunebri, em Roma.
Workshop de Biblioterapia (Lucélia Paiva)
A literatura infantil como recurso para falar de temas existenciais
Com Lucélia Paiva - CRP 06/16.410
Doutora em Psicologia - USP;
Mestre em Ciências (Oncologia) - Hopsital A.C. Camargo/SP
Psicóloga clínica e hospitar
www.luceliapaiva.psc.br
OBJETIVOS:
- A literatura infantil
- Ler, ouvir e contar histórias.
- A função humanizadora da literatura infantil
- Biblioterapia
- Exploração dos livros infantis referentes às temáticas
- Desenvolvimento da criança e a aquisição do conceito de morte: compreensão cognitiva e afetiva
- Reflexão sobre as várias perdas vividas e uma ressignificação na vida no acolhimento a tais perdas.
- Antecipadas até dia 30 de Outubro com 20% de desconto
- Ou duas parcelas de R$ 100,00 (13/out. e 13/nov.)
Forum de Bioética discutirá Morte Encefálica e Doação de Órgãos (Ingrid Esslinger)
Tema: “Morte Encefálica em pacientes não doadores:
implicações bioéticas e jurídicas”
Data: 28 de outubro de 2009
Horário: 19h
Público Alvo: Profissionais da área de Saúde
Local: Hospital Alemão Oswaldo Cruz - Auditório - Bloco B (14o andar)
Rua João Julião, 331 – Paraíso – São Paulo – SP - CEP: 01323-903
EVENTO GRATUITO
Confirme sua presença pelo telefone: (11) 3549-0042. Vagas limitadas!
Programação:
• Morte encefálica – Dr. Eli Evaristo e Dr. Sergio Pitelli
• Apresentação sucinta de dois casos clínicos – CoBi
• Discussão – Dr. Reinaldo Ayer (Sociedade de Bioética de São Paulo), Dr. Desiré Callegari (CRM e CFM), Dr. Paulo Pego Fernandes (APM) e CoBi do Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Organização: CoBi do Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Coordenação: Diretoria Clínica
Nós e os mortos (Mirian Miranda)
Um dia alguém me disse que a seguinte frase está escrita na entrada do cemitério do Gavião:
"Nós, os ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos.
Eu já fui o que tu és e tu serás o que nós somos."
Ao tentar encontrar algo relacionado vejam o que achei:
A Capela dos Ossos é um dos mais conhecidos monumentos de Évora, em Portugal. Está situada na Igreja de São Francisco. Foi construída no século XVII por iniciativa de três monges que, dentro do espírito da altura (contra-reforma religiosa, de acordo com as normativas do Concílio de Trento), pretendeu transmitir a mensagem da transitoridade da vida, tal como se depreende do célebre aviso à entrada: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. A capela, construída no local do primitivo dormitório fradesco é formada por 3 naves de 18,70m de comprimento e 11m de largura, entrando a luz por três pequenas frestas do lado esquerdo. As suas paredes e os oito pilares estão "decorados" com ossos e caveiras ligados por cimento pardo. As abóbadas são de tijolo rebocado a branco, pintadas com motivos alegóricos à morte. É um monumento de uma arquitectura penitencial de arcarias ornamentadas com filas de caveiras, cornijas e naves brancas. Foi calculado à volta de 5000, provenientes dos cemitérios, situados em igrejas e conventos da cidade. A capela era dedicada ao Senhor dos Passos, imagem conhecida na cidade como Senhor Jesus da Casa dos Ossos, que impressiona pela expressividade com que representa o sofrimento de Cristo, na sua caminhada com a cruz até ao calvário.
Imagino qual seria o sentimento que as pessoas em geral teem ao entrar nesta capela!!!!
Acredito que minimamente um quê de reflexão toma o pensamento. Partindo do princípio de que poucos se sentem confortáveis em ir até um cemitério comum e pisar ‘sobre os ossos’ imagine só estar rodeado deles!!!!!
Assistência e preconceito: essa relação vai durar até quando? (Elba Gomide Mochel)
Vários estudos apontam que as mulheres recorrem ao abortamento por motivos econômicos, principalmente por não viverem junto com o parceiro, ou por falha no uso do método contraceptivo ou já terem os filhos que planejaram. Optando por interromper a gravidez e necessitando recorrer ao hospital para o atendimento da morbidade que esta intervenção trouxe à saúde delas, essas mulheres se sentem desconfortáveis diante o profissional de saúde por não serem compreendidas na dor que a decisão pelo abortamento acarretou, além dos temores da própria morte . Isso porque, os profissionais foram preparados apenas para o atendimento no nível de necessidades biológicas e não para o atendimento das necessidades psicossociais, inclusive atendimento à mulheres nessas condições.
Nos caso de abortamento provocado, além de necessitar do tratamento de urgência, essas mulheres estão vulneraveis aos preconceitos dos profissionais que as atendem.
Nestes casos é indispensável o preparo do profissional de saúde para lidar com esta situação complexa onde seus tabus, preconceitos e convicções morais não deveriam prejudicar a relação interpessoal no processo de cuidar na maternidade, na qual o objetivo é atender a parturiente. Não é função do profissional de saúde fazer essa triagem moral, dedicando atenção àqueles que agem segundo a sua convicção e desprezando os que se opõem às suas valorações, mesmo que isso seja uma regra bastante comum e perceptível em nossas instituições de saúde.
Até quando prevalecerá? A tanatologia pode ajudar em quê para mudar esse paradigma?
Tanatólogos de destaque: Marco Túlio de Assis Figueiredo
Ars Moriendi: A Arte de Bem Viver e Bem Morrer (Ayala Gurgel)
Aprendendo Com o Filme "Wit, Uma LIção de Vida" (Erasmo Ruiz)
Pessoalmente acredito que o cinema pode nos oferecer uma excelente oportunidade para estimular discussões e funcionar como veículo potenciliazador de mensagens e conteúdos. Nâo que o cinema possa produzir milagres, mas como expressão da arte, em algumas oportunidades, pode convidar as pessoas a refletir sobre a vida, o mundo e si mesmas.
O filme que indicamos essa semana pode ter essa capacidade, notadamente para nós que trabalhamos e militamos no campo da Saúde. Vivian Bearing (personagem vivido por Ema Thompson) é uma professora de literatura inglesa que no auge de sua carreira se descobre com mum câncer nos ovários em estágio avançado. Para tentar superar a doença, submete-se a um tratamento experimental com remotas possibilidades de cura.
Durante o tratamento, Vivian irá rever aspectos importantes de sua vida ao mesmo tempo em que reflete sobre a forma como está sendo cuidada. No meu entender é este aspecto que mais nos interessa de perto. Usando da técnica de conversação direta (quando o ator olha para a câmera e "conversa" com o público que o vê), Vivian se interroga e nos interroga sobre a triste trajetória dos pacientes hospitalares, a perda de identidade e privacidade, a refração de se discutir necessidades existenciais e a lenta tranasformação de indivídio em protocolo de cuidados.
Aos poucos Vivian vai percebendo que a forma como sempre lidou com seu próprio objeto de conhecimento e, em particular, a obra do poeta inglês John Do (quase sempre focada na morte) é similar a maneira fria e distante que agora lidam com ela. Com o passar do tempo, Vivian conclui que da mesma forma que falta sensibilidade e sentimento na forma como se produz ciência, falta também no contato entre as pessoas, em particular, quando nos aproximamos do final da vida.
Filme muito instigante para se dsicutir com profissionais de saúde em hospitais sobre a forma como estão lidando com seus pacientes. Mais rico ainda se for usado como material de oficinas em enfermarias com altas taxas de óbitos. Com certeza fará com que principalmente médicos e enfermeiras possam ser motivados a rediscutir seus processos de trabalho evidenciando as ações que fazem com que muitas vezes os pacientes os rotulem como "frios" e "insensíveis". O olhar fixo de Vivian em nossos olhos pode fazer com que prestemos mais atenção a fala dos pacientes!
De maneira geral, o filme também vale para que possamos produzir uma reflexdão sobre nossas próprias vidas. De que adiante seguir de maneira cega e acrítica nossas rotinas e obrigações se de fato não estivermos de alguma forma aproveitando a vida? Ao final da exibição fica a mensagem de que a vida descreve um arco onde, no que toca nossa vulnerabilidade, nascimento e morte parecem se encontrar!
O luto virtual: negação ou novo espaço para elaboração do luto? (Ayala Gurgel)
O SUS nos EUA: será possível? (Ayala Gurgel)
Tanatólogos de destaque: Maria Júlia Kovács
Maria Júlia Kovács
Professora Associada, Departamento de Psicologia da Aprendizagem do Desenvolvimento e da Personalidade, USP
Luto e Depressão (Ayala Gurgel)
Luto e depressão não são a mesma coisa. Embora Freud (Luto e Melancolia) não reconhecesse claramente essa distinção, também não admitia similaridade, pois, na sua época, as informações sobre o assunto para validar uma reflexão mais acabada eram insuficientes. Por isso, qualquer relação que ele estabelecesse entre as duas categorias (o luto e a melancolia) estariam, inevitavelmente, comprometidas com tais condições. A sua saída foi considerar a melancolia (que pode corresponder clinicamente a depressão) como uma espécie patológica de luto. Ou seja, ela tem todos os elementos do afeto normal do luto, mas acrescidos do impulso de raiva. Impulso esse ambivalente que se direciona contra a pessoa falecida e para o interior do próprio enlutado:
"O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas, as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto; por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição patológica. Também vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. Confiamos que seja superado após certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial qualquer interferência em relação a ele.
Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. Esse quadro torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos que, com uma única exceção, os mesmos traços são encontrados no luto. A perturbação da auto-estima está ausente no luto; fora isso, porém, as características são as mesmas. O luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo na medida em que este não evoca esse alguém, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar que essa inibição e circunscrição do ego é expressão de uma exclusiva devoção ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos explicá-la tão bem é que essa atitude não nos parece patológica" (Freud, Luto e Melancolia, 1976, p.261-262).
A depressão pode ter como fator desencadeador o luto, mas não é correto identificar uma com o outro. Na ótica de Worden (Terapia do Luto, 1998, p.45), os principais motivos que temos para não identificá-los são: na reação normal de luto não ocorre a perda da auto-estima, o que é bastante comum no quadro clínico de um depressivo. As outras características podem ser as mesmas: sintomas clássicos de distúrbios do sono, distúrbios de apetite e tristeza intensa. Isso é coerente com as teses de Freud, pois, a presença de auto-estima como elemento diferenciador entre o luto e a depressão já tinha sido proposto por ele quando observou que
"(...) O melancólico exibe ainda uma outra coisa que está ausente no luto, uma diminuição extraordinária de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego" (Freud, Luto e Melancolia, 1976, p.263).
Nessa perspectiva, o enlutado com uma reação afetiva normal não se volta contra si mesmo, sua raiva ou culpa está associada, de certa forma, a algo que fez ou deixou de fazer no mundo; a algo que faça ou deixou de fazer sentido. Já o enlutado com um quadro depressivo é diferente. Sua referência ao mundo é nula, um vazio pleno, de onde podem decorrer ideações suicidas, prejuízo funcional mórbido, retardo psicomotor ou duração prolongada do luto (WORDEN, 1998, p.46). Isso porque, quando o próprio ego se esvazia, nada mais passa a fazer sentido.
Semelhança de raciocínio encontramos nos escritos de Heidegger (O que é Metafísica? 1999), quando discorreu sobre a angústia. Para ele, o homem angustiado perde toda e qualquer referência de sentido. Ele se sabe, mas não sabe o que o faz sentir o que sente:
"Na angústia – dizemos nós – 'a gente se sente estranho'. O que suscita tal estranheza e quem é por ela afetado? Não podemos dizer diante de que a gente se sente estranho. A gente se sente totalmente assim. Todas as coisas e nós mesmos afundamo-nos numa indiferença. Isto, entretanto, não no sentido de um simples desaparecer, mas em se afastando elas se voltam para nós. Este afastar-se do ente em sua totalidade, que nos assedia na angústia, nos oprime. Não resta nenhum apoio. Só resta e nos sobrevém – na fuga do ente – este 'nenhum' (Heideggeer, O que é Metafísica?, 1999, p.56-57)
Por essa razão, a sua conclusão é a de que a angústia é a manifestação do nada. Como manifestação do nada, a ausência de sentido deve prevalecer nas ações do homem angustiado. Ou melhor, a ausência de ações que, para ele, façam qualquer sentido. E isso inclui até mesmo querer morrer ou ter forças para fazê-lo quando o desejo existir.
Mas, não pensemos que haja uma passagem natural do luto normal para um quadro depressivo. Ao contrário, as pesquisas de Jacobs (apud Worden, Terapia do Luto, 1998, p.46) mostraram que as pessoas que apresentaram quadros depressivos decorrentes do processo de enlutamento já tinham história de depressão ou de algum outro transtorno de saúde mental. Nesse sentido, o enlutamento não foi considerado a causa da depressão, mas o seu gatilho, e isso pode voltar a se repetir.
CFM e ANCP iniciam forum sobre terminalidade
Boas notícias na Folha de São Paulo postada por Julio Abramczyk.Vale a pena conferir:
Amenizando a morte
JULIO ABRAMCZYK COLUNISTA DA FOLHA







