Educação para a morte: produto em falta (Ayala Gurgel)

A questão da morte e do morrer atinge a todos, mas, aos profissionais de saúde que atuam em ambiente hospitalar atinge de forma mais acentuada, uma vez que não têm que se preocupar apenas com a sua morte ou com a morte dos seus entes queridos, ela é também um desafio que faz parte do cotidiano profissional. E, dentre todos esses profissionais, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais são os que mais se expõem diariamente a essa tensão, cada qual na sua dinâmica, o que não significa mais preparados. As pesquisas sobre a formação do profissional de saúde para lidar com a morte e o morrer mostram que muitos relatam sentimentos de impotência e frustração perante a imprevisibilidade da trajetória da morte. Tais sentimentos podem levá-los à obstinação terapêutica, ou a prática da distanásia, no que diz respeito a uma inexorável tecnologização dos cuidados médicos. Nesse sentido, a presença de um comportamento obstinado que vê a morte como frustração terapêutica interdita a dignidade humana na hora da morte, fazendo com que paciente e familiares sejam impedidos de realizar seus rituais de despedida. O resultado tem sido a geração de prejuízos psíquicos incalculáveis para todos os envolvidos, inclusive para os profissionais. Acredita-se que um dos causadores desse comportamento é produzido pelo que se conhece como afastamento acadêmico com a questão da morte e do morrer. Ou seja, devido a ausência daquilo que Maria Júlia Kovács chama de Educação para a morte. Essa hipótese pode ser verificada por meio dos poucos conteúdos que abordam a questão tanatológica nos cursos de Saúde, considerados como insuficientes, pois não vão além da discussão acadêmica de conceitos e testes diagnósticos. Ou quando muito, da discussão acadêmica sobre algumas questões éticas e emocionais que envolvem basicamente a morte social e a causa mortis. Nesse sentido, a compreensão da morte como um fenômeno ao qual se está exposto diariamente (presenciando, ou tentando lutar contra) e com o qual se deveria saber lidar, se encontra ausente da maioria dos currículos. Postula-se, portanto, que, desprovido de formação acadêmica e tendo que responder concretamente aos desafios cotidianos no ambiente de trabalho, o profissional é obrigado a atuar com base em outras aprendizagens sobre o assunto, o que muitas vezes é insuficiente, quando não inadequado.

4 comentários:

Marco Antônio Abreu Florentino disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
anna_mochel disse...

A educação para a morte precisa fazer parte da vida de todos, independente de formação profissional. Deve fazer parte do currículo escolar desde a infância para que as futuras gerações desenvolvam habilidades sociais para lidar com a questão. O que será que está sendo ensinado na disciplina Filosofia (hoje parte integrante do currículo escolar)?

Anônimo disse...

Ih Marco, teu comentário foi removido. É assim mesmo, Khun já sabia como as coisas funcionavam.

Ayala Gurgel disse...

Olá, Anônimo
O comentário do Marco não foi removido. Ao contrário, foi promovido. Se olhares para o próximo tópico e perceberes quem o assina e sobre o que se trata, verás que era o comentário outrora aqui postado.
Ayala Gurgel