Introdução à Tanatologia para Trabalhadores de Saúde: Segunda Parte (Erasmo Ruiz)

Aqui chegamos a uma definição de tanatologia. A palavra vem de Thanatos, deus grego da morte, irmão do “Sono”. A expressão “logia” vem de logos, saber, estudo. Sendo assim, uma definição possível para a Tanatologia seria a de ciência que estuda as atitudes que o homem tem diante da morte e do morrer. Essa definição pode parecer estranha a princípio quando, olhando a nossa volta, imaginamos a expressão “atitude” como a ação que veríamos quando as pessoas sabem da morte e participam dos rituais fúnebres. É isso, mas também são muitas outras coisas. Atitude aqui implica também em “pensamento”, “subjetividade”, “arte”, “cultura”, “religião”, “literatura”, “comportamento”. Assim, a Tanatologia se interessa por todas as ações, atitudes e representações que o homem realiza quando elabora questões relacionadas à morte e o morrer. Convém destacar que, entre as muitas atitudes diante da morte e do morrer, o medo é sem dúvida a mais comum. Para o trabalhador de saúde esse é um aspecto muito importante, ajudando a entender porque, muitas vezes, é tão difícil manter uma comunicação saudável com um doente fora de possibilidades terapêuticas. Neste caso, o doente transforma-se simbolicamente no objeto de maior temor. O não preparo para lidar com a própria morte implica em relativa incapacidade para se lidar com a morte do outro. Vamos então discutir porque a morte seria tão amedrontadora. O fato do homem ser o único animal que sabe que vai morrer provoca o que os filósofos existencialistas chamam de solidão extrema. Embora todas as pessoas morram, tanto a minha morte como a sua são eventos absolutamente pessoais. Ninguém pode viver a morte do outro. Além disso, a morte provoca as amputações afetivas. O preço que pagamos por permanecermos vivos é a convivência cotidiana com a morte e com estas amputações. Em parte, essa convivência se dá de forma abstrata, pois, na imensa maioria das vezes, quando presenciamos a morte, a vemos como um evento distante, jornalístico ou artístico. Quando ouvimos na TV que ocorreu mais um atentado no Oriente Médio, a probabilidade de conhecermos uma das vítimas é muito remota. Nos filmes, a morte é vivenciada no seu limite mais dramático e elaborado, conseqüência quase sempre de conflitos que oferecem dinamismo à estória. O problema real da morte é quando ela se apresenta como evento concreto, quando perdemos alguém próximo. Normalmente, diante deste fato, nós tendemos a expressar o luto emocionado. É deste sofrimento oriundo da morte que queremos a todo custo escapar já que não queremos enfrentar a perda de quem amamos. A morte também sinaliza às perdas das possibilidades. Significa dizer que, em algum momento, teremos uma atividade interrompida de forma inesperada. Durante a vida toda temos que, de forma gradual e outras repentina, abrir mão de coisas. Nossos corpos se desgastam, o envelhecimento produz a perda gradual de capacidades. Significa dizer que, a todo instante, a vida nos lembra que a morte se aproxima, quer gostemos ou não dessa idéia. Lembrar das perdas graduais significa ter que lembrar a perda definitiva de nós mesmos que a morte representa. Antes o homem se achava preparado para o enfrentamento dessa questão básica. Hoje, com o fim das explicações gerais sobre a morte, ela deixou de ser um terreno exclusivo da religião transformando-se em mais um dos objetos da ciência. A ciência mesma é a grande fonte de nossas dúvidas e certezas, é ela que garante possibilidades de vida maior e mais segura. O problema é que ela não debelou aquilo que é considerado mal maior: a morte. Ora, é a ciência com seu complexo quadro de saberes que afirma a finitude como absoluta e, ao mesmo tempo, tenta nos instrumentalizar contra a morte a partir da noção de microorganismo, dos procedimentos higiênicos, das práticas de anestesia que revolucionaram a cirurgia, da farmacologia e seu arsenal cada vez mais eficiente de drogas “miraculosas”. Todo esse conhecimento criou a ilusão de que a morte pode ser detida indefinidamente, gerando aquilo que muitos estudiosos chamam de “fantasia de onipotência dos profissionais de saúde”. Essa onipotência é destruída diante da morte, pois os saberes falha na medida em que o moribundo sinaliza seus limites. Aqui nos defrontamos com outro motivo do afastamento das pessoas que estão morrendo. Em parte, queremos nos afastar não só porque elas representam a morte mas também porque elas ferem nossas vaidades ao negarem a eficiência absoluta do saber que utilizamos. A morte do meu cliente lembra inevitável, dolorosa e imediatamente a minha própria mortalidade. Óbvio dizer que todos nós desejamos o bem estar das pessoas. Este é o dever fundamental de todo o ser humano. No caso dos profissionais de saúde, este dever ético é impregnado pela ação técnica e pelo conhecimento que lhe dá sustentação. Quando afirmamos que as pessoas tendem a se afastar dos moribundos não estamos dizendo que isso é algo livremente escolhido pelos trabalhadores. Na maior parte das vezes acontece pela mistura trágica do medo e da desinformação com os processos inconscientes (determinadas forças que atuam em nossa mente sem que tenhamos clareza de sua presença e existência). Assim, esse processo não ocorre por “maldade latente”. Tomar consciência dele é de fundamental importância para que possamos lidar melhor com o paciente e, dessa forma, lidar melhor com nossas limitações e medos. Aqui precisamos nos deter nos conceitos de eutanásia e distanásia. A expressão “eutanásia” quer dizer “boa morte” em grego. Durante séculos o homem foi capaz de sua prática por entender que diante do sofrimento da morte (em particular as dores físicas intensas provocadas por algumas doenças) era lícito abreviar a dor provocando a morte diretamente. Os cavaleiros medievais portavam uma pequena lança ao lado das selas dos cavalos chamada de “misericórdia”, usada para abreviar o sofrimento dos companheiros feridos mortalmente. Fazia parte das antigas artes médicas o preparo de poções que induziam os pacientes à morte. Com o desenvolvimento da medicina e com a implementação da visão cristã de mundo, tal prática passou a ser considerada inaceitável. No entanto, é lícito pensarmos na eutanásia passiva, situação na qual o paciente vem a morrer pela suspensão de tratamentos que ao invés de produzirem melhora terapêutica, só aumentariam desnecessariamente o tempo de vida sem nenhuma implementação da qualidade dessa mesma vida. Em outras circunstâncias, a morte pode ser apressada pelo uso de substâncias que tem o objetivo primário de reduzir a dor e o sofrimento como no caso da sedação. Nesta situação também estamos falando em eutanásia passiva na medida em que a sedação não é usada diretamente para abreviar a vida e sim para reduzir o sofrimento. Em muitas circunstâncias, seja pela pressão de familiares ou pela obstinação do terapeuta em continuar atuando indefinidamente, a vida do paciente pode ser aumentada sem que haja qualquer benefício prático para ele mesmo, aumentando a dor e o sofrimento. Aqui estamos falando em distanásia. Se antes os médicos estavam ao lado do paciente em seu leito e eram quase sempre acompanhantes do desenvolver da doença, a crescente capacidade de intervir parece não sinalizar claramente em que momento temos que começar a atuar para, novamente, acompanhar a chegada da morte como conseqüência da vida. Esse foi um dos aspectos que se perdeu na relação do homem contemporâneo com a morte. Ela deixou de ser vista como um evento natural da vida e passou a ser significada como “doença”, “maldição”, “ato vergonhoso”, etc. Gostaríamos agora de compartilhar algumas questões que, acreditamos, devem acompanhar sempre os trabalhadores de saúde quando pensam a questão da morte. Ao negar a morte não estaríamos deixando de ver nossos pacientes em suas necessidades mais básicas, inclusa a necessidade de morrer em conforto? Estamos na verdade buscando curar a doença ou queremos na verdade “curar” a morte? Nossa tecnologia médica não está querendo assumir os espaços antes deixados à religião? Em que momento nossos saberes e práticas terapêuticas podem se transformar em instrumentos de tortura? Continua em futuro post

Um comentário:

lella disse...

Olá!

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