A Gripe e a Mistanásia (Erasmo Ruiz)

Nos últimos meses temos sido alvos, dia após dia, de reportagens falando sobre a gripe mexicana, digo suína, digo H1N1. A primeira dificuldade parece ter sido esta mesma. Definir nomes para algo que nos causa medo e prejuízos econômicos. A ética do “politicamente correto” identificou desde o início que o rótulo “mexicana” discriminava nossos irmãos latino-americanos do norte e que chamar a gripe de “suína” poderia colocar em risco bilhões de dólares do comércio de derivados de porco ou questionar a forma como, em muitos países, essa indústria cresce sem o mínimo controle sanitário. A gripe então tornou-se uma placa de automóvel: “H1N1”. E junto a esta placa veio o medo de que nada poderia deter essa nova praga. As populações de classe média dos grandes centros urbanos não tem mais estrutura simbólica para lidar com grandes epidemias, afinal, as principais conquistas tecnológicas da saúde parecem estar mais disponíveis a ela e aos mais ricos. Disso talvez resulte o pânico que presenciamos nos últimos dias e que tenderá a aumentar significativamente. Não adianta ter um bom plano de saúde, ter água encanada, morar num seguro condomínio num bom bairro e assinar o “Discovery Health” pela TV a cabo. O insidioso H1N1 está a espreita ao dobrarmos a esquina ou num singelo beijo num sábado a noite. O problema é não haver pânico para a dengue, à meningite, à doença de Chagas, à tuberculose ou à mortalidade infantil. Isso mesmo! Todas essas doenças produzem uma letalidade muito maior mas guardam uma característica importante: não são "democráticas", atingem mais os pobres e miseráveis. Foram normalizadas como fatalidade ou desígnios da vontade de Deus. Não são inspiradoras para roteiros de novas teorias da conspiração nem motivam a indústria farmacêutica a buscar novas drogas miraculosas. Ha alguns anos foi cunhado o termo “Mistanásia” por Leornardo Martin, uma expressão técnica que traduz algo que já sabemos há muito tempo: os pobres morrem de doenças mais específicas da pobreza e a miséria, é séria candidata a morrer daquilo que a maioria poderia cuidar com o mínimo de suporte (as diarréias infantis prevenidas pelo soro caseiro é um dos exemplos). A mistanásia é a eutanásia social que não causa alarde. Se exterioriza nas balas que matam os mais jovens, na desnutrição que se não matar na infância faz chegar doenças da velhice mais cedo, na morte lenta e cruel nas cracolândias, na agonia de populações ainda marginais às políticas sociais conmpensatórias. Quando a gripe H1N1 chegar para valer, será nesse meio que ela colherá a maior parte do seu macabro tributo. Mas, ainda assim, o H1N1 vem nos lembrar que embora a gripe possa matar mais em meio a miséria, ela não será indiferente aos ricos, suplantando portanto os “comportados” limites da Mistanásia. Juntando-se a isso os ingredientes de uma mídia covarde e subserviente, sempre pronta a atender aos interesses mais hediondos de seus patrocinadores, temos o terreno perfeito para que tanto pobres quanto ricos sejam enganados pelos interesses maiores das corporações de doença, digo, de saúde. A H1N1, que mata tanto quanto a gripe comum, precisa agora de uma vacina para que todos possam se abraçar durante a missa ou trocar beijos com desconhecidos numa festa. E que continue morrendo aos montes aqueles que não tem esgoto, água encanada, aqueles que moram em casebres de barro e tem a “sorte” de nascerem miseráveis. Mas não se preocupem. Como aconteceu na Argentina, em breve teremos máscaras cirúrgicas com emblemas do nosso time de futrebol predileto. Quem sabe algum cientista consiga inventar uma boa camisinha para o beijo? E quem disse que os vírus não podem ser mercantilzados? Para breve a promessa de cura da gripe que um dia vai entrar em mutação. Teremos uma nova gripe espanhola? Perdão aos espanhóis...teremos um novo número para apostar na loteria?

3 comentários:

Germanne Patrcia disse...

De fato podemos perceber o crescente descaso para com os indivíduos que se encontram à margem da sociedade. Contudo, é imporatante percebermos que esse descaso é historico, tendo começado a ser construído nos tempos mais arcaicos e, devido a isso, mudar essa realidade sugifica construir uma nova forma de sociabilidade.
Germanne Patricia

Anônimo disse...

O professor Erasmo faz referencia ao nome da doenca que lembra a indicacao de placa de automovel. Achei muito interessante e acho que podemos prever o nome popular e o nome de grife de muitos agravos, conforme o individuo que portar o tal agravo

yarakubler disse...

A neutralidade do nome e a sua difusão democrática de fato mobiliza a atenção das autoridades da saúde publica. como bem destacou o professor Erasmo, caso o H1N1 estivesse concentrado a margem da primeira classe da sociedade não causaria todo esse alarde.