Sobre a Eternidade (Marco Antônio Florentino)

Lembrando-me de que nos casamentos (e também nas fábulas) o padre finaliza: e que sejam felizes para sempre (ou viveram felizes para sempre), escrevi esse texto sobre ETERNIDADE. Nunca me iludi com essas questões sobre eternidade... somos finitude e concretude. Nossa história existencial começa quando apreendemos a racionalidade, ou seja, a capacidade de pensar o mundo e a nós mesmos; continua no processo da ação vivencial e termina no desvelar do ser, ou melhor dizendo, do sentido do ser... a morte e, a partir daí, o NADA. ¨Khayyam, não te aflijas por seres um grande pecador! É inútil a tua tristeza. Depois da morte virá o NADA ou a misericórdia¨ (Omar Kháyyam). Isso é niilismo? Claro que não, afinal, é justamente na angústia da consciência de todo este ciclo existencial, que faz com que preenchamos o vazio das nossas existências, seja na arte, no trabalho, no prazer, no sofrimento, no amor, no mêdo ou na felicidade. Em suma, há que se viver intensamente o momento existencial, com suas contradições, interrogações, provocações, certezas, sonhos e mistérios. Observem o recurso de linguagem que utilizo para enfatizar o que digo, com diversas palavras que expressam diferentes sentimentos. Assim o faço para representar, de forma mais aproximada , o que é nossa existência, aliás, nosso MOMENTO existencial, que não carrega o passado, que é projeção e não se atrela ao futuro, que é antecipação. Talvez assim possamos superar a ANGÚSTIA da nossa condição de ¨SER PARA A MORTE¨. Mas tem que ser um processo cíclico, pois só na angústia nos tornamos autênticos, sendo esta, portanto, necessária. Novamente Khayyam: ¨Os dias passam rápidos como as águas do rio ou o vento do deserto. Dois há, em particular, que me são indiferentes: o que passou ontem, o que virá amanhã¨. Quanto à questão genética, compreendo-a análogamente como as teorias espíritas da reencarnação, só que do ponto de vista físico ou fisiológico. Com o tempo, a fragmentação do ser em inúmeros outros seres descaracteriza a sua identidade, que antes representava sua alma e que, na pequenez da nossa memória, também desaparece, como um ente perdido na linha incognoscível do espaço e tempo. Entretanto, na obra de arte, a representação ôntica permanecerá infinitamente além da sua representação ontológica. Já na questão religiosa... bem, esta eu prefiro me calar. E tome Khayyam: ¨Que vale mais? Fazer exame de consciência sentado na taverna ou prosternado na mesquita? Não me interessa saber se tenho um senhor e o destino que me reserva¨.

Um comentário:

Gabriel disse...

Não somos apenas o momento. Somos também nossos projetos e antecipações. Apesar da separação, que considero apenas didática, tudo isso nos pertence e constitui.

Retire de mim minha projeção. Retire de mim minha antecipação. Serei o que?

O tempo é incognoscível? Lembrei do sofista Górgias: "O ser não pode ser conhecido; se puder ser conhecido, não pode ser compreendido; se puder ser compreendido, não pode ser dito". Numa única frase ele distinguiu os três períodos da História da Filosofia: metafísico, epistemológico e da linguagem.

No período epistemológico encontramos Kant. E ele já tinha firmado uma coisa para a humanidade: não podemos conhecer a coisa em si. Então quando eu vejo uma afirmação do tipo "a memória é incognoscível", lembro-me de Kant.

Mas também lembro de Gadamer, que já pertence ao perído da linguagem, quando afirma que "tudo é fenômeno e a coisa-em-si é apenas uma pressuposição posterior ao fenômeno". E o próprio Gadamer diz que a memória é histórica, faz parte da formação humana. Precisamos aprender a esquecer, a guardar na memória o que queremos e precisamos. Quem não sabe esquecer é doente da alma.

Não sabendo esquecer, não saberá viver intensamente. Aquele que sabe esquecer, sabe se entregar ao momento.