Crônica de uma Morte Não Anunciada (Erasmo Ruiz)


Ela tinha 21 anos. Não me deterei no seu quadro diagnóstico, afinal, quando alguém morre, desperta em nós a alma da medicina legal: “Do que ela morreu?”, “Qual foi a doença?”. Isso tudo é rigorosamente inútil diante da dor e do sofrimento. Enfarto, AVC, Diabetes, Câncer de Estômago!? Saber do que morre as pessoas não as trazem de volta.

Com 21 anos, uma garota em gravidez de risco teve complicações. Morreu na UTI, num dia cheio de esperança quando o nordeste brasileiro espera que São José nos mande chuva, afinal, se não chover forte até o dia 19 de março, a colheita não será boa. A chuva veio, mas a jovem partiu, num momento em que a vida, a semelhança da chuva, deveria prometer esperança e não a morte.

Tantas mortes acontecem no dia a dia, inclusa aquelas que contrariam nossas expectativas. Ingenuamente se pensa que a morte só visita os velhos ou quem já viveu alguma coisa e atrevidamente se aproxima dos 50 anos. Não se acredita que a morte visite os jovens...mas ela vem. Vem disfarçada em acidente de trânsito para fazer sua colheita na invulnerável classe média dona de planos de saúde, vem de bala antes dos vinte como agente do Serviço de Proteção ao Crédito do tráfico de drogas.

Naquela UTI a morte violou a esperança dos trabalhadores. Um misto de tristeza em amálgama estranho com a indiferença e a culpabilização parecia tomar conta de todos. “pobre moça”, “Tão Jovem”, “Mas isso sempre acontece”, “as pessoas ficam grávidas de qualquer jeito”, “Ninguém se previne”, “vamos deixar a tristeza de lado, pois tem mais gente pra cuidar”.

O espetáculo da vida deve seguir o seu curso. O leito inutilmente ocupado deve ceder seu espaço para quem dele precisa. O corpo que era cuidado agora é um problema. Precisamos nos desvencilhar desse entulho bioquímico que deseja voltar correndo para a natureza, desfazendo-se nos seus inúmeros elementos, produzindo desconforto físico e psicológico nos outros.

Para tal existem procedimentos que não vamos descrever minuciosamente. Basta dizer que o corpo se transforma num “pacote”, longe do olhar dos curiosos...literalmente longe, colocado num espaço apelidado de necrotério, um prédio com reboco caindo, com paredes caiadas, na companhia de tudo aquilo que é considerado inútil, aquela sucata hospitalar que os anos vão empilhando nas paredes. Em cima de uma maca ou de uma pedra, o corpo esfria e espera!

Mas já dizia a sabedoria do poeta que morremos várias mortes. Ela morreu com 21 anos, sozinha na companhia dos trabalhadores em meio aos bips da UTI. Sua família, daquela pobreza que flerta com a miséria, estava longe cuidando dos afazeres da vida, tudo muito singelo: “o que temos de fazer para comer amanhã?”. Deixar alguém no hospital era um luxo impensável, despesa que se desdobra em transporte, comida, tempo. Não era desafeto, era simplesmente a sobrevivência.

Quando alguém morre no hospital é um alvoroço. Muitas coisas se desdobram rapidamente. O objetivo final é se livrar daquele corpo. Os médicos querem fugir de dar a má notícia. As diligentes enfermeiras correm de um lado para o outro livrando o leito de sua carga inútil e colocando um candidato a sobrevivência em seu lugar. O morto agora precisa de documentos para sair do hospital. Precisa de serviços funerários. Precisa que o mundo saiba da sua nova condição. O que o hospital deve fazer?

Ele tem que entrar nesse esteio burocrático. Se o morto precisa de documentos, é necessário então que a família seja acionada. Mas, vejam só! Nossa jovem cometeu a descortesia de morrer num horário em que as assistentes sociais não se encontram mais no hospital. Naquele espaço as coisas só podem acontecer até as 18 horas. Como num passe de mágica, as questões sociais desaparecem então. Caso elas tenham o atrevimento de darem o ar de sua desgraça – afinal os seres humanos continuam passando fome e desespero depois das 18 horas – cabe ter a paciência de se esperar, esperar, esperar, afinal, Jesus jejuou 40 dias e passou tanto tempo sofrendo na cruz!
Mas os cadáveres são “impacientes”. Assim, um trabalhador é designado para ir em busca da documentação do morto. Existe apenas um detalhe, pequeno, quase insignificante nesse quadro que mistura tristeza com exigências burocráticas. A família ainda não sabe o que aconteceu. Não recebeu nenhum telefonema, até porque, para o espanto da classe média, existem milhões de pessoas que não tem telefone. Imaginemos então o quadro: um trabalhador de hospital, talvez o motorista de uma ambulância, chegará a casa de alguém que deixou a filha de 21 anos viva na UTI de um hospital para pedir os documentos da filha morta!

Existe nisso tudo um tom de absurdo! Algo que nos desalenta, mas que também deixa um grito engasgado na garganta! Basta que possamos nos ver na mesma situação, nem que seja apenas por um mísero segundo. Pois venham comigo. Não tenham medo de passar por essa experiência de dor e indignidade humana com pinceladas de barbárie e indiferença, um segundo apenas!

Nos dias de hoje é mais importante os documentos do morto do que zelar minimamente pela dor dos vivos! Sempre achei que a maneira como lidamos com nossos mortos nos diz muito sobre a forma como estamos lidando com os vivos. Vamos tocando a vida sob a égide da eficiência e racionalidade. Os mortos, de forma anárquica, subvertem todo nosso plano de vida. Não são mais consumidores, deixaram de ser coniventes com as normas sociais, não se importam mais com as convenções! Tornam-se lembretes de que algo vai errado nessa vida esvaziada de ritos e submissa aos desejos das atrizes da novela de TV ou de animais num zoológico cheio de câmeras em busca de um milhão e meio de reais.

Precisamos urgentemente humanizar a morte e o morrer sob pena de que o que ocorrer nas outras etapas do processo de atender e cuidar sejam representações frívolas de um teatro caricato. O raciocínio é simples: se humanizarmos a morte e o morrer, tarefa tida como mais árdua, então o restante será mais fácil. Manejaremos melhor a nossa dor, aprenderemos a viver melhor o encontro com a vida. Tomaremos então consciência plena de que não somos curadores, somos antes de tudo produtores da vida, algo tão precioso, posto que finito!

2 comentários:

yarakubler disse...

Até pouco tempo atrás acreditava que o desconforto estava na maneira dos profissionais de saúde em lidar com os mortos ou com sujeitos fora de possibilidades terapêuticas. Mas, basta um olhar minimamente atento para perceber que pessoas não alfabetizadas ou mais pobres, na maioria das vezes são tratados como humanos inferiores. Falo por conhecimento de causa. Dai, me vem algumas perguntas: quais os reais critérios para um atendimento humanizado? que categoria humana é digna de um serviço que não a violente nos seus direitos? Como garantir respeito aos mortos, se estamos perdendo o talento de lidar com os vivos?

Anônimo disse...

Lidar com a morte e o morrer cotidianamente não é tarefa fácil. Ser identificado enquanto portadores da morte súbita, seja de quem já ousou viver mais de 50 ou de um jovem que saiu para o colégio e foi morto porque não entregou um celular; dizer para um e uma mãe que seu filho(a) de poucos meses não resistiu, não é fácil. às vezes deparo-me com frases prontas que de nada alviarão aquela dor que parece cortar sem anestésico nossa carne. Talvez,um atendimento humanizado nsse momento e dor, passe pela constatação de que somos também portadores dessa finitude que nos afrinta, do medo da perda daquels que amamos e de que somos marcados pelas dores que não podemos curar.