Um Olhar sobre o Cotidiano da Desumanização da Morte: Relato de Experiência (Ariadna Simplício e Yara Monteiro*)


A gestação teve de ser interrompida ao quinto mês, em razão de uma infecção que atacou o feto e comprometia também a saúde da mãe. A genitora durante a gravidez havia perdido quantidade significativa de líquido amniótico, e naquela data essa quantidade havia chegado a zero. Sendo assim, a equipe médica responsável optou por estimular o parto. Foi assim que, por volta das 20 horas do dia 27 de Janeiro de 2010, a mãe foi encaminhada para a sala de parto, dando a luz a uma criança do sexo masculino, que nasceu com vida. Todavia, o menino faleceu menos de três horas depois. No dia seguinte, além da dor indescritível da perda do primeiro filho, os pais sofreram com a insensibilidade e com o máximo desrespeito à dignidade humana por parte da agente funerária que conduziu o processo de preparação para o sepultamento. A agente assumiu um postura grosseira ao não mostrar disposição para respeitar o tempo necessário para os procedimentos até o velório. Ainda no hospital, a funcionária fazia referência a uma outra criança também falecida e que tinha de ir buscar em uma outra Maternidade, sinalizando um atendimento “coisificado”, puramente comercial, não respeitando a dor e o momento da família enlutada. Durante todo o atendimento, a agente privilegiava o próprio tempo, desconsiderando ou rebaixando a um segundo plano o tempo da família. Contudo, foi convencida pelo avô do menino e por duas Assistentes Sociais, amigas da mãe do bebê falecido, que também estavam presentes na ocasião, a atender um caso por vez. Chegando à residência da família, onde parentes e amigos aguardavam a criança, a agente funerária, num primeiro momento, dificultou a retirada do caixão de dentro do veículo da empresa. Mesmo a família afirmando que não iria demorar, pois haviam preparado e esperado esse momento para a oração em nome da criança, A agente funerária resistiu, dizendo que, se a criança descesse, a família deveria aguardar enquanto iria buscar a outra criança. Daí, a agente abriu o porta malas do carro, retirou a tampa do caixão e expôs aos olhares curiosos de todos a criança morta, dizendo que o velório seria realizado ali e, caso o caixão saísse do carro, ela não iria esperar. “Senti que meu filho parecia uma fruta exposta em um desses carros que vendem frutas e param na porta da gente”, desabafou a mãe da criança. Nesse momento, para resguardar o sentido daquele momento e o sentimento da família, as Assistentes Sociais tiveram que intervir. O diálogo foi provocado no sentido de sensibilizar a referida técnica de que a própria especificidade dos serviços prestados por ela exige uma conduta diferente, um trato mais humanizado. Não estamos aqui indicando excessos de sentimentalismos, mas reiterando a necessidade de sensibilidade para lidar com sentimentos humanos em momento de sofrimento. Foi necessário acionar por telefone a gerência da funerária para que se deslocasse outra equipe para atender o outro caso, garantindo assim, o direito da família de realizar o velório. Durante a discussão, a agente chegou a argumentar que o convênio da Prefeitura com a funerária, estava com pagamento em atraso e que ela tinha outras demandas. Alegou até que o trânsito da cidade dificultava o seu trabalho. Mas, as Assistentes Sociais insistiram que as famílias não devem ser punidas, tomadas do seus direitos, ou agredidas em sua dignidade em virtude de qualquer que fosse a dificuldade com repasses de recurso da Prefeitura. Caso a funerária não dispusesse de condições operacionais de atender satisfatoriamente a demanda, deveria não assumir a responsabilidade de realizar um trabalho dessa natureza, que demanda, no mínimo, bom senso. Quem recorre ao beneficio do auxilio funeral recorre por necessidade e precisa ser respeitado integralmente em seu direito. Com certeza, um destes direitos é a vivência dos ritos para poder elaborar o luto! *Ariadna Simplício - É Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF) e Mãe do Philipe. Contatos: ariadna_simplício@yahoo.com.br ou 85-8149-8900 - Yara Monteiro - Assistente Social da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura de Fortaleza-CE (SEINF); Aluna de Especialização em Saúde Pública (UECE); Membro do Grupo de Estutos Tanatológicos (GESTA), "irmã/madrinha" do Pedro Rafael. Contatos: yarinhaalmeida@hotmail.com ou 85-8834-8247/9659-0269

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom,vocês são mesmo feras...Parabéns pela trabalho, voltado verdadeiramente para o bem social!!!

Ruzinho disse...

a velha (i)lógica do mercado... sensibilidade tá em extinção...

Nesvaldo Soares disse...

A dignidade humana deve ser um direito de todos,mesmo que seja em seus momentos finais (morte) e deve ser respeitada.Se sensibilizar com a dor do outro nos torna mais humanos....

Nesvaldo Soares

Rodrigo Hésed disse...

Excelente descrição da atenção que se deve ter no respeito à dignidade humana. Parabéns às corajosas assistentes que, com perseverança, mantém a esperança de que mais respeito ao ser humano é possível.