Morte e Imortalidade na Mitologia Grega: Endimião (José Jackson Coelho Sampaio)

         
  Também herdeiro de Prometeu, Deucalião e Heleno, nasce Endimião de Cálice, uma das mais felizes filhas de Éolo. Considerado o mais belo dos homens sobre a terra, tornou-se o primeiro rei bucólico da Élida. Forte e sereno, impetuoso e gentil, vitorioso nos esportes e nas caçadas, sensual e amoroso, o jovem rei somente não se sentia à vontade nos afazeres do governo.


            E sua beleza mortal atraiu Apolo em uma de suas encarnações humanas. O deus, sob forma de jovem caçador, apareceu no palácio da Élida e pediu pouso, assumindo assim o papel de viajante visitante, sujeito aos direitos e deveres da hospitalidade. Entre Apolo humanizado e o rei Endimião foi se tecendo um forte vínculo, primeiro pelos ritos da hospitalidade, depois pela admiração derivada dos feitos nas caçadas, em seguida pelas tramas do carinho entre homens jovens e livres e belos, por fim se impôs o desejo e o amor. Eles se amaram com intensidade e constância, mas o deus tinha outros ingentes afazeres e o tempo marcava o mortal, reduzindo-lhe, ou tornando opaco, o esplendor juvenil. O deus se afasta.
            Mas antes de se afastar, ele entretém com Endimião longas conversas, demoradas e esclarecedoras confidências, e oferece-lhe um dom. Endimião pede a imortalidade da própria beleza e juventude. Para quem é imortal, a imortalidade é uma característica dada, não uma conquista, resultante de alguma luta ou mérito. Apolo diz se é o que rei quer, o rei terá, e, em seguida, ainda sob forma humana, se afasta pelos campos.  O rei da Élida percebe que as maturações de seu corpo estacionaram, mas que um certo langor, uma preguiça, uma sonolência deixam cada vez mais seus músculos lassos, reduzem cada vez mais sua vontade de governar, tomar decisões, julgar, premiar, punir.
            Endimião renuncia ao trono e deixa que os filhos decidam a sucessão numa corrida de carros. Seu espírito sensível concebe e oferece uma última regra: que a corrida seja aberta a outros, caçadores, guerreiros, não seja restrita aos filhos. Um estrangeiro ganha a corrida e a geração de Éolo perde o reino da Élida. Mas Endimião já não presenciou o desenrolar destes acontecimentos: saíra pela estrada, com sua roupa de caça, suas sandálias, seu alforje de flechas, na mesma direção pela qual partira seu amor, apenas revelado no final como o deus Apolo. Ao entardecer, à entrada de uma das frescas e secas cavernas do monte Latmos, Endimião se recolhe e adormece, para nunca mais acordar.
            Sim, os deuses são traiçoeiros. A imortalidade, mantidas a eterna juventude e a beleza, tinha um preço, o da vida em metabolismo basal. O sangue corre nas veias, os pulmões, suavemente, respiram, o coração, mais suavemente ainda, pulsa, porém com o corpo imóvel e a consciência fora da queima dos carvões da vigília, reduzida à prontidão onírica. Naquela caverna do monte Latmos, jaz Endimião e pelo arco do céu, como faz diariamente, Selene, a deusa Lua, passa com seu carro de luz fria e azul. O foco da luz azul encontra o corpo de Endimião e o averigua. Selene se encanta. Selene se apaixona. Jamais vira o esplendor da beleza em perfeito repouso. Jamais vira a beleza humana em seu esplendor. Ela toma os freios do carro lunar, pela primeira vez, e desce à terra. E enquanto ela contempla o jovem adormecido, a terra fica um tempo sem o brilho mortiço do luar.
            Após a amorosa contemplação, Selene se decide. Pelo menos uma vez por mês estacionará o carro da lua ao lado do monte Latmos e, suave, sutil, felina, deitará ao lado do ápice da beleza humana masculina. Os seres humanos compreenderão e podem inventar seus pequenos simulacros de lua para amenizar os períodos noturnos de escuridão. O mais formoso de todos está dormindo, mas vive, o corpo é levemente morno, o ar evola das narinas como brisa delicada, o sexo vez por outra intumesce e solta sêmem sobre a grama. Selene não tolera este desperdício de sêmem. Aconchega-se ao belo adormecido, assenta-se sobre seu membro viril e, nas noites sem luar, engendra filhos. Passividade onírica e fértil: eósforos, fósforos, hésperos, ninfas do amanhecer, ninfas do entardecer, faíscas de pedras, pirilampos, fogos fátuos, faíscas orgânicas de coisas mortas em putrefação. O poeta Homero contou a descendência destes pequenos fogos fugidios, todos filhos de Selene e Endimião. As contas do poeta chegaram a dez mil possibilidades. Pelo menos ganhamos estes simulacros de luz, além daqueles derivados de nossa humana oficina criativa.

Continua em próxima postagem

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