DEPOIS DO RETORNO DE SATURNO (Cristina de Oliveira)


Neste ano, entre meus trinta e completar trinta e um anos comecei a ver meus vinte e poucos anos com uma sensação diferente. Voltei aos espaços transformados da faculdade e vi que havia outras pessoas lá e me vi em algumas delas, com as mesmas roupas, com o mesmo brilho e percebi que tudo isso fora há muito tempo, outra vida, outra encarnação.

E voltei para casa com a sensação de estranheza própria de quem muda de mundo...
E um dia acordei na minha cama e eu estava num outro corpo, com outro rosto, com outras marcas....
E senti falta dos dez últimos anos quando não se tinha ainda o peso das perdas do percurso da vida e senti falta dos meus heróis, dos meus amigos imaginários e reais e senti falta da leveza da despreocupação de quem começa.
Pra alguns esse tempo passa mais cedo, pra alguns passa muito depois dos 30 anos, pra outros não chega nem mesmo a começar direito...
E me vi, de repente, sem mais permissão pra ter medo da vida, no ponto médio de uma ponte invisível com menos tempo pra errar e recomeçar...
E me vi dentro do peso da morte e imaginei a morte como apenas adormecer e descansar...
E então adormeço e descanso todos os dias na minha cama e desperto de novo em outro corpo...

Marília Campus Bello

Um comentário:

J. disse...

Saturno. Também me trouxe essa sensação. Me trouxe a maturação em forma de crises, daquilo que talvez sempre tenha estado latente em mim. Me trouxe até mesmo, pós 30, uma tentativa de suicídio com soniferos, uma internação na UTI, e uma crise com a escolha profissional sete anos depois de feita. Me trouxe a sensação de estar desconexa no mundo, sem raízes, sem nada ter construído, e com o peso de não ter repentinamente (ufa! por espanto, foi quase assim mesmo. bem rápido... o tempo), 20 anos. Então ,tateio outros caminhos, sem gurus ou xamãs. Aliás, sem amigos também. Quando penso no passado e na passagem do tempo, muitas vezes é nostalgia, noutras é como se um fio puxasse toda a minha sanidade e me fizesse sentir flutuante, suspensa. Mas, apesar de tudo, vejo entre o que sou e o que fui a vida inteira uma ligação subjetiva de desenvolvimento, ainda que não tenha crescido ou me emancipado em muitos aspectos e sido negligente comigo mesma.