MANIFESTO AOS PADEIROS

O clima esquentou depois que mandei o Monthy Pyton? (vide post anterior a este) Acusaram esse blog de "banalizar" a morte? Ora cavalheiros, olhem a sua volta. A morte está banalizada porque a vida tornou-se banal. E, em muitos aspectos, ela está banalizada porque estamos dando a mínima para quem está a nossa volta. Uma das funções aqui na Thanatos talvez seja "esfregar" na cara de todo mundo a condição de mortalidade, que desperta a alma para a nossa vulnerabilidade nessa terceira pedrinha que orbita o sol. Precisamos nos sentir vulneráveis. A maioria de nós está mais confiante na imortalidade como os passageiros no dia que embarcaram no Titanic Presunçosos? Banalizadores? Acaso devemos nos cercar da seriedade do guardião da biblioteca de "O Nome da Rosa"? Talvez o que seja "banalizar" para alguns possa ser uma forma de mostrar aos outros, com alguma graça e leveza, a dor e o sofrimento desse mundo. No fim das contas estamos todos agindo feito crianças, rindo daquilo que nos causa medo. Mas o riso talvez seja uma forma de sinalizar ao mundo que precisamos ver a morte com outros olhos para fugir isso sim da banalização da vida. Ora, não existe uma vida que se opõe a morte na arte. Devemos nos libertar dessas falsas dicotomias. Vida e morte formam uma totalidade e se nos sentimos incomodados ou ofendidos com a morte sendo utilizada como matéria prima da arte, talvez tenhamos que parar para refletir o quanto não estamos vendo mais a vida pulsante nas canções, nos quadros, nas esculturas, no cinema. Não que ela não esteja lá, mas porque nós, ao negarmos doentiamente a morte, mesmo com a erudição e a sofisticação dos filósofos e dos literatos, estamos na verdade nos negando a perceber a VITALIDADE em sua unidade mais bela. Eros e Thanatos são irmãos xipófagos, um não vive sem o outro. A iminência da morte, ter que conviver com ela mesmo que de soslaio mas sabendo que ela está ali, nos mostra a face do homem diante de seu maior mistério, medo e vulnerabilidade. Por isso, o personagem de Remarque em "Nada de Novo no Front" se desespera quando é obrigado a conviver numa trincheira com o soldado francês agonizante que ele mesmo feriu. Frente a frente, olho no olho, em situação que não exigia mais a ferocidade aliada à desconstrução da imagem humana, o soldado podia ver aquilo que o outro realmente era: um ser humano apesar de francês, um ser humano apesar de inimigo. Assim, o personagem se descobre, apesar de singular, como pertencente a espécie humana e, portanto, com atributos similares àqueles que negava naquele que deveria matar. Particularmente emotivo, é o relato que descreve o conteúdo da carteira do soldado francês, cheia de fotos das pessoas queridas. Naquele instante, o alemão tem a real dimensão do seu oponente. Ele não é um animal, ele é um homem e, tragicamente, além de homem, ele agora é dotado de atributos correlatos aos seus, ele é uma pessoa que ama, enfim, uma história para viver e contar. A condição da finitude iminente colocam o francês e o alemão no mesmo barco. Por fim, presunção maior talvez seja indicar caminhos religiosos (ou não) a cada um de nós. Estamos tocando todos na face de D(d)eus cotidianamente, seja alguma coisa em algum lugar que manipula os cordões sem que a gente tenha clareza disso ou seja essa coletividade incomensurável chamada gênero humano, o verdadeiro Deus de Feuerbach, projeção do homem nas igrejas, paraísos, infernos e terras prometidas. Particularmente fico com a segunda hipótese...e dai? Serei mais belo ou feio, bom ou perverso, burro ou inteligente por conta disso? Por fim, convido todos a rirem com o vídeo abaixo. A morte não pode ser a letargia da rotina. Pensar na morte deve fazer com que se desdobre a imensa alegria adormecida nesse sistema que nos impele a trabalhar a vida toda para depois morrermos sem antes enriquecermos ainda mais os tanatocratas. Rir ainda é o melhor remédio. Fiquemos ao lado de Eros sabendo que essa convivência só será plena na medida em que nos lembremos sempre da existência de Thanatos.

2 comentários:

Pinguim leopardo disse...

Não concordamos que a morte seja irmã xifópaga da vida. Essa discordância passa pela vulnerabilidade dos conceitos que temos sobre a vida e, por conseguinte nossa ignorância sobre a arte. O que é a vida para muitos talvez não seja para nós os mais esclarecidos. Claro que a sociedade como um todo morre de medo da morte e cria artifícios para sublimar esse nosso ultimo suspiro. Nas sociedades burguesas esses conflitos permeiam pontes solidas da universidade ao burgo. È preciso ver o ser humano com olhos universais, é uma intimação. Nossa ortodoxia Aristoteliana talvez seja responsável por isso. Em Eurípides a conceituação é outra, pois em seu espírito o efeito da morte nunca residiu na tensão épica, no atrativo da incerteza a respeito das peripécias eventuais, mas na grande cena, na retórica do lirismo onde a paixão e a dialética do herói se confundem. A vida não é a mesma coisa da morte. Através da arte pura que flui nos tablados seja cariocas ou arenas Romanas muitas vezes enganamos a morte, mas a vida nem em alucinações conseguimos enganar.... . A vida vai prosseguindo a morte não . E não há nada de doentio nisso, há sim a certeza que só poderemos um dia falar com desenvoltura sobre a morte quando soubermos o que é a vida . Ignorar essa condição é academicismo , é retórica vulgata.

25 de Maio de 2009 05:38

Padeiro Moacir

Daniel Alabarce disse...

"Talvez, o que seja banalizar para alguns possa ser uma forma de mostrar aos outros, com alguma graça e leveza, a dor e o sofrimento desse mundo"

Gostei disso!

A arte trágica, segundo Nietzsche, é justamente esta grande musa que pode aliviar, atenuar a crueza da realidade, porém, sem negá-la, como fazem os niilistas...

Enxergar a crueza da vida é doloroso sim, mas usar as lentes da arte podem aliviar este choque.

Dizer que defender que Thanatos deve ser enxergado sem ajuda de Eros seja academicismo, isso sim é academicismo!