Romantismo e Morte: "O Brilho de Uma Paixão" (Erasmo Ruiz)

 
Quando ouvimos a expressão "romantismo" ou "romântico", os estereótipos nos remetem imediamente às visões das pessoas apaixoonadas, aqueles que não tem medo ou vergonha de expressar afetos e sentimentos, invariavelmente de maneira exagerada. Alguns podem remeter a memória às quase sempre enfadonhas aulas de literatura onde estudantes ficam tentando reter as sinópses que os professores reportam sobre livros e poemas de autores famosos que jamais lerão. Mas, estaríamos preparados para adentrar ao mundo do romantismo? Ou, melhor dizendo, o que seria expressar amor e afeto na sociedade burguesa na Europa Ocidental no primeiro quarto do século XIX? No mês passado assisti ao filme "Brilho de uma Paixão", da diretora neozelandesa Jane Campion (que cinéfilos remeterão imediatamente ao belo "O Piano"). Sai do cinema com a sensação de ter sido atropelado por um trem de êxtase e tristeza. Mas, antes de configurar meus sentimentos em relação ao filme, vamos a sua história. O filme fala do relacionamento de John Keats (poeta inglês) com Fanny Brawne. Num mundo onde as telenovelas ensinam adolescentes a engravidarem para "prenderem" os namorados, o filme marca a diferenciação básica da afetividade romântica, vivenciada como casta, quase platônica, com a aura da fatalidade de uma juventude que a qualquer momento será ceifada pela morte. A história dessa relação é narrada com ternura, emoldurada por belas paisagens mas sem cair no engodo dos clichês de filme de época que prendem os espectadores com eficientes direções de arte que escondem histórias vazias. Não há vilões ou uma trama que intenta separar a vida dos amantes, pelo contrário. É a fatalidade de uma sociedade marcada pelas péssimas condições sanitárias que transforma a tuberculose na doce musa, a morte no colo da mulher amada com vestes esvoaçantes nos convidando para as bodas definitivas. Os personagens não estão fazendo juras eternas nem o poeta declama poemas melosos para a sua amada. Na verdade, lutam desesperados para escaparem daquilo que sabem ser seu destino: a separação! Em parte, ela já está demarcada pelas convenções sociais pois o poeta não tem meios financeiros para desposar sua amada. Mas a pior separação é aquela determninada pela morte! O filme é de uma beleza plástica intensa.A trilha sonora, de estilo minimalista, está lá como uma boa moldura que nunca deve chamar muita atenção mas sim destacar nosso olhar em direção a pintura. No entanto, o público não está mais acostumado a essa forma de expressão artística, muito menos a maneira como esse amor, intenso e singelo, é tratado no filme. Ainda é preciso destacar Brown, melhor amigo do poeta que tenta preserva-lo da paixão de Fanny, direcionando-o ao aperfeiçoamento de sua arte. Não é o vilão da nossa estória. Pelo contrário. O que move seu gesto é o amor pela arte do poeta e a intuição de que a doença irá ceifa-lo mais cedo ou mais tarde...e como foi cedo. John Keats morre longe de sua amada aos 25 anos de idade. Boa parte de seus poemas foram mal recebidos pela crítica ainda durante a vida do autor. Só depois da sua morte puderam perceber a beleza de sua poesia. O embate de Brown e Fanny, com diálogos cheios de sarcasmo e ironia, é um dos pontos altos do filme. Um dos belos momentos é quando Fanny e Keats em seus quartos, separados apenas por uma parede, se "tocam" imaginado como seria viver a plenitude daquele amor. E ainda há a cena da despedida dos dois em que estão deitados na cama e que ela chega a insinuar a possibilidade de fazer amor com o poeta. Ele recusa! Esse era seu maior sacrifício. Não toca-la sexualmente era a forma de preserva-la para viver as possibilidades de um casamento. Para nossa mentalidade acostumada a ver cenas de sexo na sessão da tarde pode parecer algo muito estranho isso tudo, ainda assim, belo e intenso! A cena mais tocante é o momento em que Fanny recebe a notícia da morte de seu amado. Seu pranto é uma das coisas mais intensas que já vi numa tela de cinema. Nos transporta à dor do personagem, nos coloca no tempo congelado do filme. Essa percepção da morte, presente e intensa, talvez nos ajude a entender como poetas como Keats ou músicos como Schubert e Chopin, apesar de viverem tão pouco tempo, tiveram produções intensas não só em qualidade mas também em quantidade. No início da sessão em que estive havia mais ou menos 20 pessoas numa cinema que comportava 300 poltronas. No final do filme, 10 espectadores ainda permaneciam. Fiquei pensando no que havia determinado que tantos saíssem antes que o filme terminasse. Os risos que ouvi diante do choro de Fanny ao saber da morte do amado deu-me uma pista. Nossa sociedade não consegue conviver com a morte na sua expressão mais dolorosa representada pela perda e pelo amor que já se intui inconcluso. Precisamos do espetáculo dos evisceramentos dos filmes de terror, das horrendas mortes dos vilões ou do massacre de Jesus no filme de Mel Gibson. Aprendemos a rir com a morte na estética do cinema-espetáculo. Desamparados, a maioria de nós parece não ser mais capaz de expressar a emoção da dor. Nesse sentido, um amor romântico sem clichê é realmente um amor de morte, mas com carinho, ternura e até júbilo. Para assisitir a esse filme, desarme-se! Não queira um mero entretenimento, um escapismo dos problemas, um relaxamento das questões mal resolvidas. Talvez você fique sufocado com o grande alerta dos personagens. Eu fiquei engasgado pelas coisas que ainda não vivi. Como nos mostra Keats, pensar na morte nos leva a imaginar tudo o que não veremos e, talvez, dessa maneira, vamos vivendo cheios de esperança em fazer aquilo que a morte pode potencialmente nos furtar: SONETO Quando fico a pensar poder deixar de ser antes que a minha pena haja tudo traçado, antes que em algum livro ainda possa colher dos grãos que semeei o fruto sazonado; quando vejo na noite os astros a brilhar - vasto e obscuro Universo, impenetrável mundo! - quando penso que nunca hei de poder traçar sua imagem com arte e em sentido profundo; quando sinto a fugaz beleza de alguma hora que não verei jamais - como doce miragem – turva-se a minha mente, e a alma em silêncio chora um impulsivo amor. E a sós, me sinto à margem do imenso mundo, e anseio imergir a alma em nada até que a glória e o amor me dêem a hora sonhada! Que a vida possa então ser brilhante e intensa como a paixão do filme, como a poesia de Keats!

2 comentários:

Rosangela Jacinto disse...

Quanta verdade escreveste, Erasmo!
E que triste constatação do modo moderno que a maioria das pessoas têm de se defrontar com o amor, os sentimentos, a morte...
Amei te ler!

The Saturday"s English Students disse...

Erasmo,

É verdade.
Assisti ao filme com a mesma sensação de transporte à época do Romantismo. Todo o peso, melancolia, paixão exarcebada,toda a angústia misturada com sentimentos que não se pode suportar em não viver. O Romantismo nos é estranho. Atualmente, as pessoas não querem entrar em uma sala de cinema e raciocinar sobre o que está implicito, infelizmente.
Adorei o seu post.

P.S.: Emocionei-me com a interpretação da "Fanny" quando da morte de "John". Lindissima.