A Janela (Traduzido por Ricardo Teixeira*)



Dois homens, ambos gravemente doentes, ocupavam o mesmo quarto de hospital. Um deles podia sentar em seu leito por uma hora, todas as tardes, para ajudar a drenar os pulmões. Seu leito ficava próximo à única janela do quarto. O outro tinha que passar o tempo todo deitado.

Os homens conversavam por horas a fio. Falavam de suas mulheres e famílias, seus lares, seus trabalhos, suas férias. E todas as tardes, quando o homem próximo à janela passava a sua hora sentado, descrevia para seu colega de quarto todas as coisas que podia ver pela janela. O homem do outro leito começou a viver para aqueles períodos de uma hora em que seu mundo se alargava e se enchia de vida por todas as atividades e cores do mundo exterior.

A janela dava para um parque com um lago maravilhoso, disse o homem. Patos e cisnes brincavam na água, enquanto crianças velejavam seus barcos de brinquedo. Amantes caminhavam de braços dados entre flores de todas as cores. Grandes e velhas árvores davam graça à paisagem e tinha-se uma linda vista da cidade distante. Enquanto o homem próximo à janela descrevia todos esses deliciosos detalhes, o homem do outro lado do quarto fechava os olhos e imaginava a cena pitoresca.

Numa tarde quente, o homem próximo à janela descreveu a passagem de uma parada. Embora o outro homem não pudesse ouvir a banda, ele podia vê-la com seu olho interior, na medida em que o cavalheiro da janela a retratava com palavras. Inesperadamente, um estranho pensamento invadiu sua mente:

Por que ele teria o privilégio de ver tudo enquanto eu não posso ver nada?

Isso não parecia justo. Enquanto o pensamento fermentava, o homem se sentiu, inicialmente, envergonhado. Mas na medida em que o tempo passava e ele continuava deixando de desfrutar a vista, sua inveja degenerava em ressentimento e, em pouco tempo, o tornou amargo. Ele começou a remoer os pensamentos e se tornou incapaz de dormir. Ele tinha que ficar na janela! – esse pensamento, agora, controlava sua vida.

Uma noite, bem tarde, enquanto o homem deitado fitava o teto, o homem próximo à janela começou a tossir. Ele sufocava com os fluídos em seus pulmões. O homem deitado assistia imóvel, na penumbra do quarto, enquanto o homem da janela lutava tentando alcançar o botão para chamar ajuda. Em menos de cinco minutos, a tosse e o sufocamento pararam, junto com o som da respiração. Agora, só havia o silêncio... Um silêncio mortal.

Na manhã seguinte, a enfermeira do dia chegou trazendo água para os banhos. Quando encontrou o corpo sem vida do homem junto à janela, entristeceu-se e chamou os atendentes do hospital para que o levassem – sem esforço, nem barulho. Quando julgou ser o momento apropriado, o homem deitado perguntou se ele poderia mudar para o leito próximo à janela. A enfermeira ficou feliz em fazer a mudança e, no momento em que se assegurou que ele estava confortável, o deixou só.

Lentamente, dolorosamente, apoiou-se em um de seus cotovelos para dar sua primeira olhada. Finalmente, ele teria a alegria de ver tudo por si mesmo. Ele se esticou e girou lentamente para olhar através da janela ao lado de seu leito.

Tudo que viu foi um muro branco.

* Ricardo Teixeira é Consultor da Política Naconal de Humanização (PNH), médico sanitarista, docente e pesquisador vinculado ao Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa (Butantã) / Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP.

Um comentário:

Forasteira disse...

Achei muito bonito esse texto.
As vezes existem pessoas na nossa vida que fazem as coisas parecem mais belas do que realmente são e acabamos sendo consumidos pela inveja e egoísmo que acabamos perdendo essa pessoa e pior acabamos descobrindo que sempre que olhar para esse "muro brando" nos perguntaremos o porque de ter sido tao mesquinho e ingratos com aquilos que temos.Sempre queremmos mais,queremos aquilo que ja temos mas simplesmente nao percebemos antes de perder.