O Abandono dos Mortos Exprime o Abando dos Vivos (Erasmo Ruiz)


Eu sei que imaginar-se na situação que vou propor é extremamente desagradável. Entretanto, acredito que esta é a única forma de mobilizar você para este problema.



Uma pessoa muito importante em sua vida desapareceu. Depois de 48 horas de muito sofrimento e ansiedade, mobilizando pessoas e instituições, você reebe um telefonema da polícia pedindo que se dirija ao Instituto Médico Legal (IML) onde está um corpo que parece coincidir com as descrições da pessoa desaparecida. Nesta situação você é morador de Goiania, capital do Estado de Goiás.

Ao chegar no IML você imagina que irá passar por uma situação típica de seriado americano. Alguém irá leva-lo até o necrotério, puxar uma "gaveta refrigerada" onde jaz um corpo coberto por um lençol. Em outras situações basta que uma câmera com boa definição mostre imagens do corpo eximindo a pessoa do contato direto com o cadáver.

Mas em Goiania as coisas são diferentes. Você encontrará o IML numa interminável reforma que entre outras consequências produziu uma visão digna de Dante na "Divina Comédia" em sua ida ao inferno. Ao entrar você logo sentirá os terríveis odores da putrefação pois os corpos são deixados ao ar livre, expostos ao calor e as moscas. É também ao ar livre que são feitas as necrópsias.

Será nessas condições que você é levado ao "reconhecimento" do presumível corpo de uma pessoa importante para sua vida. No planejamento da realização da reforma não se pensou no óbvio: cadáveres apodrecem se não forem guardados em condições adequadas. Particularmente não acredito que as pessoas não pensaram nisso, donde, parece que não se importaram com as consequências, parece ser descaso mesmo.

Em que pese a problemática higiênica, quero destacar os aspectos humanos em questão. Não é eticamente aceitável que cadáveres sejam lidados dessa forma: empilhados, abandonados e apodrecendo a céu aberto. Não é civilizado e digno que pessoas vivendo estados psicológicos de extrema ansiedade e tensão sejam expostas a possibilidade de encontrar o corpo de um ente querido nestas condições.

O cadáver não é uma "coisa". Ele ainda porta a dignidade humana e é objeto de afeto e cuidado para as pessoas próximas. É inaceitável que a população de Goiania conviva com uma situação destas ha quase dois anos. É inaceitável que seres humanos em estado de vulnerabilidade absoluta sejam expostos ainda mais a esse espetáculo dantesco quando na busca de seus entes queridos.

Episódios como este, infelizmente não tão incomuns como desejaríamos, sinalizam para uma trágica realidade. A forma como cuidamos dos nossos mortos é um dos indicadores do quanto a vida está sendo banalizada, do quanto tendencialmente estamos criando uma  sociedade onde idivíduos e grupos são incompetentes para construir redes de solidariedade. Parece que estamos nos importando cada vez menos uns com os outros.

Abaixo os emails da Assembléia Legislativa de Goias e do Governo do Estado de Goias. Escreva, mostre sua indignação sobre isso:


Assembléia Legislativa de Goias

Governo do Estado de Goias


Acesse a notícia sobre o IML AQUI

3 comentários:

Rosangela J. disse...

Situação ultrajante!

Ayala Gurgel disse...

É isso mesmo, Erasmo, não há uma forma diferente de tratar os vivos e os mortos, afinal, a forma como tratamos os nossos mortos é a forma como tratamos o sofrimento dos que ficam, dos enlutados.
A cidade de Goiania tem dado, constantemente, maus exemplos de como lidar com os mortos.

Márcia Vieira disse...

È uma situação Caótica e desrespeitosa com o ser humano...
Seria tão bom que todos nós tivessimos uma morte digna, de qualidade.
Márcia Vieira